Privatização do setor elétrico de SP trouxe prejuízos para a população
Passados 14 anos da privatização do
setor energético paulista o e apenas dois dias do apagão produzido pela
multinacional norte-americana AES-Eletropaulo - que deixou o centro da capital
paulista sem luz por quase oito horas, o plenário Franco Montoro, da Assembleia
Legislativa do Estado de São Paulo, foi palco quinta-feira (13) da audiência
pública “Chega de pagar para ficar no escuro”.
No cartaz de convocação do evento, uma mão levanta a vela para
iluminar o breu, tendo ao centro a caricatura do ex-presidente do Programa
Estadual de Desestatização do governo estadual, Geraldo Alckmin, ladeada pelas
figuras de FHC e José Serra. Os arautos do neoliberalismo e das privatizações
identificados com o seu significado prático: queda na qualidade dos serviços,
falta de energia, aumento da conta de luz, precarização e demissões.
A audiência pública promovida pelo Sindicato dos Trabalhadores
Energéticos do Estado de São Paulo (Sinergia), Federação dos Trabalhadores
Urbanitários do Estado de São Paulo (FTIUESP) e pelo deputado Rui Falcão (PT)
reuniu dezenas de lideranças sindicais, dos movimentos sociais e parlamentares,
que condenaram o sucateamento do sistema elétrico paulista e a sua entrega ao
capital privado – a maioria internacional – que tem multiplicado os apagões. E
iluminado os seus cifrões.
Entre os absurdos proporcionados pelo
desmantelamento do patrimônio público dos paulistas, foi lembrado que
multinacionais como a AES Eletropaulo, chegaram mesmo a dar calote na dívida
com o BNDES, sem falar na proliferação de CNPJs para driblar a fiscalização...
E como não recordar do afinco do então ministro do Planejamento de FHC, José
Serra, segurando o martelo da privatização da Espírito Santo Centrais Elétricas
(Escelsa)?
Logo no início do evento foi lida uma carta do presidente nacional
da Central única dos Trabalhadores (CUT) e líder eletricitário, Artur Henrique,
com a qual lembrava que a privatização do setor era “uma tragédia anunciada” em
que os tucanos “rifaram o patrimônio público” em nome do “abate de uma dívida
que só cresceu, enquanto as tarifas subiram astronomicamente, a qualidade dos
serviços despencou e os apagões se tornam cada vez mais freqüentes, penalizando
duplamente a população”.
ALTAS TARIFAS - Levantamento apresentado pelo
presidente da Federação dos Urbanitários, Djalma de Oliveira, demonstrou que
após a privatização/desnacionalização, a energia brasileira passou a ser a
quinta mais cara do mundo, algo completamente injustificável, principalmente porque
países com a mesma matriz hidráulica, como Canadá e Noruega, ocupam
respectivamente a 29ª e 30ª posição. Depois da “venda” do patrimônio público,
apontou Djalma, as tarifas aumentaram em mais de 200% acima da inflação, com
percentuais que estampam o tamanho do crime cometido pelo tucanato. Na década
de 1997/2007, contra uma inflação acumulada de 96,80% (ICV-Dieese) ou 93,53%
(IPCA-IBGE), o reajuste de energia elétrica na Região Sudeste alcançou 261,63%
(comercial); 262,94% (residencial) e 395,74% (industrial).
O presidente do Sinergia, Jesus Garcia, citou a verdadeira
epidemia de acidentes de trabalho ocorrida por conta da precarização e
terceirização dos serviços, “que são um câncer no setor elétrico” e denunciou a
prática antissindical das empresas que amealharam o patrimônio público e que
“agora não dão a mínima justificativa para descumprirem acordos com os
trabalhadores”.
Entre os inúmeros exemplos de descalabro, foi citada a explosão da
uma subestação de energia no bairro de Pirituba, na Capital, em novembro de
2009, causada por falta de pessoal e de manutenção.
ATRASO - Na lembrança de todos, reforçada com um gráfico apresentado pelo
presidente do Sinergia, a falta de operadores que fez o Estado de São Paulo
bater o recorde de demora para restabelecer a energia após o “apagão”, com 6
horas e 12 minutos; contra 5 horas e 3 minutos do Rio; 3 horas e 46 minutos do
Espírito Santo e apenas duas horas de Minas Gerais, segundo dados do próprio
Operador Nacional do Sistema (NOS).
O deputado Rui Falcão falou da extrema dificuldade encontrada
pelos parlamentares para fiscalizar as empresas após as privatizações. “Os
serviços privatizados pioraram e os preços das tarifas representam um peso no
orçamento doméstico e um aumento nos custos de produção. Hoje, São Paulo está à
mercê dos monopólios privados”. O parlamentar comunicou que pretende, através
de projeto de lei, amparado na mobilização popular, retirar a Companhia
Energética de São Paulo (CESP) da lista de empresas a serem privatizadas. O
petista também criticou a irracionalidade de repassar o patrimônio público dos
paulistas para mãos estrangeiras, como foi o caso da CTEEP, de posse dos
colombianos da ISA.
Fazendo um histórico do descalabro
tucano, o parlamentar lembrou que as privatizações renderam R$ 32,9 bilhões,
mas o Balanço Geral do Estado mostra que a dívida consolidada cresceu de R$ 34
bilhões em 1994 para R$ 138 bilhões em 2004. “Resumo da privataria: Alckmin
vendeu 2/3 das estatais, mas a dívida cresceu 33,5% em dez anos” , frisou.
“Não há razão para enxugamento das estruturas, para não cumprir
contratos, para não investir em manutenção preventiva, em expansão da rede,
porque essas empresas privadas já acumulam mais de R$ 20 bilhões de geração de
caixa, com lucros superiores a R$ 15 bilhões”, destacou o parlamentar petista.
Conforme Rui Falcão, apenas nos últimos seis anos, cinco empresas alcançaram
geração de caixa de R$ 17.65 bilhões: CTEEP (R$ 5,03 bilhões); EBE (1,53
bilhões) ; Eletropaulo (R$ 4,951 bilhões); AES Tietê (R$ 3,92
bilhões) e Duke (R$ 2,21 bilhões).
DEMISSõES - Uma pesquisa realizada pela subseção do
Dieese-Energéticos com base em relatórios da administração, compara o número de
trabalhadores das empresas na época da sua privatização (25.677) com o ano de
2008 (14.055), comprovando a redução de 45,26% no quadro de funcionários. Houve
perda de postos de trabalho em todas as privatizadas: CPFL - de 5.524
trabalhadores baixou para 3.028 (-45,18%); Eletropaulo – de 7.668 para 4.141
(-46%); CTEEP – ISA – de 2.737 para 1.327 (-51,52%); AES Tietê – de 832 para
318 (-61,78%); DUKE – de 400 para 304 (-24%); Bandeirante – de 4.503 para 1.068
(-76,28%); Elektro – de 2.757 para 2.678 (-2,87%) e CPFL Piratininga – de 1.256
para 1.191 (-5,18%).
ACIDENTES - O número de acidentes no setor entre
1999/2008 não deixa dúvidas sobre os graves riscos - para o usuário - da
substituição de trabalhadores qualificados por pessoal de “empresas
contratadas”. Ocorreram neste período 1368 acidentes (+ 56,8%) com o público –
envolvendo tratamento médico de zero a 15 dias; 236 acidentes (+ 233,33%) com
tratamento médico de 15 dias a dois meses; 141 acidentes (+500%) com
tratamento médico de dois a quatro meses; 120 acidentes (-21,43%) com lesões
corporais graves (perda de órgãos e invalidez temporária, etc.) e 566 acidentes
(+26,47%) com morte ou invalidez permanente. No mesmo período os acidentes com
empresas contratadas foram 1498 (+ 41,25%) envolvendo tratamento médico de zero
a 15 dias;, 273 acidentes (+ 75,00%) com tratamento médico de 15 dias a dois
meses; 81 acidentes (+80%) com tratamento médico de dois a quatro meses;
29 acidentes com lesões corporais graves (perda de órgãos e invalidez
temporária, etc.) e 56 acidentes (+100%) com morte ou invalidez permanente.
DESCULPAS - O apagão que atingiu cinco bairros
centrais de São Paulo na terça-feira (11) (Bela Vista, Campos Elíseos,
Higienópolis, Santa Cecília e República) foi ocasionado, conforme a
AES-Eletropaulo, pelo rompimento de uma emenda em cabo subterrâneo no Largo do
Arouche. Há denúncias do Sindicato sobre demissões de técnicos altamente
qualificados e falta de investimento.
A multinacional é uma das empresas que questionou as novas regras
de aferição da qualidade do serviço, em vigor desde 1º de janeiro, e que
deveriam ter gerado abatimentos – a partir das contas de abril - pelo não
fornecimento de energia
Recentemente a AES Eletropaulo anunciou o pagamento de dividendos
relativos ao exercício de 2009, a ser realizado em duas parcelas no valor total
de R$ 686,316 milhões.